Qual o tratamento para Transtorno Obsessivo Compulsivo e Tiques?

 

O primeiro e mais importante passo é a orientação familiar. A família necessita entender que se trata de um problema orgânico e que ninguém é culpado por isto.

Compreender que em muitos casos os sintomas são transitórios é outro dado importante.

 

Por outro lado, quando os sintomas estão trazendo prejuízo para o funcionamento diário da criança e/ou sofrimento importante com comprometimento da sociabilidade, é necessário avaliar a necessidade de medicação.

 

Em termos escolares, uma criança com diagnóstico de TOC pode se apresentar impossibilitada de realizar as tarefas em função do tempo que permanece ligada nos pensamentos repetitivos ou nos rituais. Muitas vezes passa inúmeras vezes o lápis em determinada letra até que ela fique perfeita ou apaga infinitas vezes sua tarefa já que ela nunca parece boa o suficiente. Muitas vezes a criança se esforça para que ninguém note as suas “manias”.

Já os tiques, com freqüência geram brincadeiras e apelidos dentro do grupo. A criança se esforça para não fazê-los, mas não consegue permanecer longos períodos livre dos tiques e quando se concentra em alguma atividade eles surgem sem que a criança note. Portanto, dependendo da intensidade dos tiques, é comum o surgimento de problemas de sociabilidade. Os profissionais devem estar atentos para que a criança não sofra maus tratos no ambiente escolar.

 

Existem opções seguras e eficazes para tratar o transtorno obsessivo compulsivo e tiques. É muito importante que o preconceito sobre medicação psicotrópica na infância não atrapalhe o tratamento. Deixar de medicar uma criança que esteja sofrendo e sendo prejudicada no seu dia-a-dia não é correto nem justo.

 

Em alguns casos se faz necessário tratamento psicológico, psicopedagógico ou terapia comportamental. Deve-se ter bom senso: nem todos necessitarão, mas quando necessário, é de grande valia.

 

Para concluir, é fundamental a constante comunicação entre a escola, a família e os outros profissionais que atendem a criança. Só assim as crianças serão atendidas de maneira integral e integrada. E é para isto que estamos aqui.

Transtorno obsessivo compulsivo (TOC)

É fato que fazer diagnóstico em questões relacionadas ao comportamento é sempre difícil. As doenças mentais e as doenças relacionadas ao desenvolvimento pagam este preço: são questões complexas e multifatoriais.

 

Existe uma grande variabilidade de comportamentos observados nos seres humanos. Alguns comportamentos são considerados normais em determinadas culturas e anormais em outras.  Da mesma forma, um comportamento pode ser considerado normal em uma época da vida (infância, por ex.) e patológico se permanecer após uma determinada idade ou se tiver grande intensidade.

 

Como agravante, nem sempre o comportamento observado no consultório corresponde aos sintomas contados pela família. É um ambiente artificial que dificilmente permite uma observação mais natural de um comportamento. Não é difícil imaginar, que num ambiente completamente novo e com pessoas estranhas uma criança se comporte de maneira diferente do usual. E, infelizmente, é neste contexto que são dados a maioria dos diagnósticos em neuropsiquiatria infantil.

 

Portanto, a avaliação diagnóstica e a opção terapêutica das queixas comportamentais são bem mais complexas do que a idéia de que existe um remédio certo que melhorará em 100% uma determinada doença.

 

É fundamental levar em conta a queixa da criança, a queixa da família, as conseqüências do problema (depressão, baixa estima), a história natural do problema (melhora espontaneamente ou não) e o que significa medicação para aquela família.

Para uma família um determinado grau de agitação pode parecer normal enquanto para outra pode parecer insuportável.

O mesmo acontece com as diferentes escolas. Uma criança com tique motor e hiperatividade leve pode não ter problema acadêmico e social em uma escola mais liberal, mas pode ter muitos problemas em uma escola tradicional que valoriza a disciplina acima de tudo.

 

O que é o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC)?

 

Obsessão é um pensamento desconfortável, recorrente e persistente (mesmo que a pessoa tente ignorá-lo ou interrompê-lo) que causa ansiedade e desconforto.

Na maior parte das vezes a pessoa reconhece que os pensamentos obsessivos vêem da sua cabeça, mas não consegue pará-los.

 

Compulsão é um comportamento repetitivo impulsionado pela idéia obsessiva que objetiva prevenir determinadas conseqüências ou aliviar o desconforto causado pela obsessão. O comportamento repetitivo consome tempo (+ de 1 hora por dia) e atrapalha o funcionamento do dia-a-dia.

 

Quais os sintomas mais comuns de TOC na infância?

 

As obsessões mais freqüentes na infância têm como tema principal sujeira/ contaminação, medo de que algo terrível vá acontecer, morte ou doença. É freqüente também a preocupação com simetria (de objetos, de atos ou até da movimentação no espaço).

 

As compulsões mais freqüentes vêem então de encontro as obsessões sendo os rituais mais comuns relacionados com o ato de se lavar, de se descontaminar, de verificar, ordenar, alinhar, procurar simetria e contar.

 

Apesar de não ser a regra, é freqüente se encontrar na história clínica fatores que temporalmente se relacionam com o aparecimento dos sintomas de TOC, sendo os mais freqüentes divórcio dos pais, morte de pessoa próxima, mudança de casa, ida para colônia de férias, doença da própria criança ou imagens vistas em programas de TV ou filmes.

 

O que são Tique e como são classificados?

 

Tiques são movimentos bruscos, rápidos, repetitivos e de grupos musculares específicos. Apesar de serem considerados movimentos involuntários, as pessoas portadoras de tiques conseguem diminuí-los por pequenos períodos ou em determinadas circunstâncias, mas infelizmente eles retornam logo a seguir.

 

Com relação à prevalência dos tiques, 7-20% das crianças em idade escolar apresentam algum tique. A idade média de surgimento dos tiques é de 7 anos sendo que para ser classificado pelo DSM-IV como “tiques da infância” devem surgir antes dos 18 anos.

 

Trata-se de um problema biológico com forte base genética. É fato que ansiedade e estresse podem exacerbar os tiques, mas isto não significa que se trate de um problema psicológico. Sabidamente é um problema orgânico, sendo inclusive necessário excluir outras doenças (como por exemplo, abuso de substância) que podem causar quadros semelhantes.

  

Um tique pode ser classificado como motor ou vocal.

 

O tique motor puro geralmente se caracteriza por contração de grupos musculares da face, pescoço ou ombro. Os mais comuns são picar repetitivo, elevar das sobrancelhas, algum tipo de careta, movimento flexão ou rotação do pescoço e elevar dos ombros.

 

O tique vocal implica na emissão de algum som ou palavra.  Pode ser um pigarrear, a emissão de pequenos sons ou até a emissão de palavras ou palavrões (coprolalia).

 

Dependendo da intensidade dos tiques uma criança pode vivenciar dificuldades sociais, desenvolver baixa estima e até um quadro depressivo.

 

Na avaliação de qualquer criança com tique deve-se levar em consideração a presença de co-morbidades (outras doenças associadas). Dentre as co-morbidades, as encontradas com maior freqüência são: déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e o transtorno obsessivo compulsivo (TOC).

 

 

Qual a diferença entre tique transitório, tique crônico e Síndrome de Tourette?

 

Acompanhando a figura abaixo é possível verificar que o tempo de duração do tique é um fator importante na classificação.

 

Caso um tique motor ou vocal dure menos de 4 semanas, deve ser classificado como tique não especificado (NOS). Caso dure entre 4 semanas e 1 ano, deve ser classificado como tique motor ou vocal transitório.

 

Quando o tique motor ou vocal tem duração superior a 1 ano sem intervalo livre de tique maior do que 3 meses consecutivos é considerado um tique crônico.

 

Para o diagnóstico de Síndrome de Tourette é necessária a presença de tique motor E vocal sem intervalo livre de tique maior do que 3 meses consecutivos. Eventualmente na hora do exame neurológico a criança não apresenta simultaneamente tique motor e vocal, mas a história clínica afirma que em outro momento a criança já apresentou outros tipos de tiques.

Tiques e Síndrome de Tourette

Carla Gikovate

médica — neurologista infantil — mestre em psicologia