Espectro autístico e suas implicações educacionais

O Quadro Clínico

Em 1943, Leo Kanner chamou a atenção pela primeira vez para um grupo de crianças que apresentava isolamento social, alterações da fala e necessidade extrema de manutenção da rotina. A este conjunto de sintomas Kanner denominou autismo.

Nas décadas seguintes o autismo se fortaleceu como uma entidade diagnóstica e passou a ser estudado por muitos pesquisadores.

Inicialmente foi valorizada a hipótese de que o autismo era causado por fatores psicológicos e de que os pais eram responsáveis pelo surgimento deste quadro por apresentarem um comportamento frio e obsessivo com os seus filhos. Com o passar do tempo, essa hipótese foi posta de lado pela literatura médica e atualmente se considera o autismo como uma desordem neurobiológica, apesar de o mecanismo preciso da doença ainda não ser conhecido.

Atualmente, o diagnóstico de autismo deve ser visto como pertencente aos Transtornos Invasivos do Desenvolvimento (TID) ou Pervasive Developmental Disorder (PDD) ou Espectro Autístico. Estes termos se referem a um grupo de quadros clínicos diagnosticados em crianças cujo comportamento apresenta o tripé de sintomas descritos por Wing: falha na interação social recíproca; dificuldade na comunicação verbal e não-verbal; comprometimento da imaginação com repertório restrito de interesses e atividades. 

É importante perceber que existem variações quanto ao grau de severidade destas características no momento do diagnóstico, sendo correto afirmar a existência de diferentes graus de autismo dentro do espectro autístico.

Em termos clínicos, os sintomas podem estar presentes desde o nascimento ou surgirem em algum momento antes dos três anos de idade. Com o progresso do paciente e com o passar do tempo, um sintoma pode se tornar mais leve. Como ilustração, pode-se observar exemplos da evolução dos sintomas da tríade no quadro abaixo:

Para completar, é freqüente a criança com quadro clínico dentro do espectro autístico apresentar interesses pouco comuns, demonstrar grande atração por objetos que rodam e escolher como “brinquedo preferido” coisas incomuns como barbantes ou caixas de papelão. Os movimentos corporais repetitivos (estereotipados), como, por exemplo, um balanço do tronco para frente e para trás, um movimento de “bater asas” ou de balançar as mãos também são freqüentes.

 

Diagnóstico

O diagnóstico de autismo se baseia somente em dados clínicos (história e observação do comportamento). Não existe exame complementar capaz de comprovar este diagnóstico. Os exames complementares permitem apenas investigar a presença de doenças que sabidamente estão associadas com autismo, como, por exemplo, síndrome de rubéola congênita, síndrome de Down, síndrome de West, esclerose tuberosa, síndrome do X‑frágil, entre outras. Em 70% dos casos, no entanto, não se encontra qualquer doença associada, e os exames complementares (radiológicos, metabólicos ou genéticos) são inteiramente normais.

 

Tratamento

Infelizmente não existe um tratamento curativo para o autismo.

Sabe-se hoje que algumas técnicas comportamentais e educacionais trazem beneficio quando iniciadas precocemente. O ideal e que tais intervenções sejam iniciadas antes dos quatro anos de idade.

Neste contexto, o papel da escola é fundamental. É neste momento que a criança tem contato natural com outras crianças. O ideal é que a criança freqüente uma escola regular onde as outras crianças não apresentam as dificuldades de comunicação e sociabilidade que a criança do espectro autístico apresenta.

Porém, não basta colocá-la no grupo. Sem intervenção adequada, a criança tende a permanecer isolada, sem dirigir a atenção para a atividade e se auto-estimulando com objetos ou brincadeiras repetitivas.

O ideal é a criança estar na escola regular com a presença de um facilitador.

 

Papel do Facilitador

O papel do facilitador é funcionar como intermediário nas questões sociais e de linguagem. O objetivo é ensinar para a criança com sintomas do espectro autístico como participar das atividades sociais, como se relacionar com crianças da sua idade e o que se espera dela em cada situação. Em alguns momentos é necessário traduzir a informação auditiva (ordens verbais) em informações visuais, apontando ou mostrando figuras relacionadas com o que foi dito.

 

E por que é necessário alguém disponível só para isto?

 

 

 

 

Carla Gikovate

Renata Mousinho

Dra. Carla Gikovate

Médica — Neurologista infantil — Mestre em Psicologia

Especialista em Educação Especial Inclusiva

Falha na interação social recíproca

Dificuldade na comunicação

Comprometimento da imaginação

Isolamento total, como se estivesse em outro mundo.

 

ò

Passividade diante dos outros, mas sem rejeição da presença.

 

ò

Aceitação do contato, mas não busca o encontro.

 

ò

Contato somente com adultos ou crianças mais velhas.

 

ò

Dificuldade de estar com mais de um ao mesmo tempo.

 

ò

Abordagem do outro na tentativa de interação de modo desastrado e inábil.

 

ò

Estabelecimento espontâneo de contatos sociais, de uma forma particular, ingênua e unilateral.

 

Sem linguagem verbal e não verbal (ou pouca).

 

ò

Fala limitada, com imitações (ecolalias) que podem ser do que o interlocutor acabou de dizer (ecolalia imediata) ou de situações mais distantes (ecolalia remota).

 

ò

Fala um pouco mais adaptada, mas com reprodução de trechos que ouviu que são “colados” (pouca fala produtiva – da própria criança) É comum o uso da terceira pessoa ao invés do “EU”.

 

ò

Abreviação de frases, expressão do estritamente necessário, sendo o contato social e a “troca de idéias” ignorados.

 

ò

A linguagem parece um pouco mais desenvolvida, mas persistem alterações no discurso recíproco, na compreensão da linguagem figurada e entoação estranha, apesar do vocabulário e da gramática intactos.

Repetição incessante de movimentos, rotina ou de atividades específicas.

 

ò

Reações comportamentais drástica mediante mudanças como, por exemplo, trocar de lugar um objeto da casa.

 

ò

Presença de rituais (Ex: antes de sair de casa tem que...; na hora do banho deve sempre...).

 

ò

Mania de perfeição; tudo deve ser simétrico e não pode ficar fora daquele lugar. Gosta de alinhar objetos, colocar e tirar objetos de uma caixa.

 

ò

As atividades repetitivas são freqüentes, no entanto as reações a mudanças são menos importantes.

 

ò

Os jogos do tipo “faz de conta” são ausentes; o que é possível observar é a cópia do jogo de outras crianças.

 

ò

Pode reproduzir em jogos situações do dia a dia, mas o faz de conta que introduz elementos novos e criativos ainda é difícil.